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Uma possível associação entre vírus e câncer de mama

Pesquisa analisa material genético de pacientes com câncer e compara com indivíduos controle, que não possuem histórico familiar da doença e têm baixo risco de desenvolvê-la

Um vírus encontrado em camundongos pode estar associado ao desenvolvimento do câncer de mama em humanos. Esta hipótese é tema de uma pesquisa realizada na Pós-graduação em Patologia Experimental, do Centro de Ciências Biológicas, pela doutoranda Náthalia de Sousa Pereira. Coordenados pela professora Maria Angelica Ehara Watanabe (Departamento de Ciências Patológicas), no Laboratório de Polimorfismos DNA e Imunologia, os estudos têm como foco a identificação de agentes associados à doença, incluindo componentes presentes no próprio material genético (DNA) do paciente, os chamados marcadores moleculares.

Nathália Pereira atua na detecção do DNA do vírus do tumor mamário murino (do roedor) (MMTV) no câncer de mama humano. Ela explica que da mesma forma como ocorre com o Papilomavírus Humano (HPV) para o câncer de colo de útero e o câncer de orofaringe, pode existir a participação do MMTV na patogênese de cânceres de mama humano.

O câncer de mama é um dos tipos mais comuns de câncer entre as mulheres no Brasil e no mundo. Existem quatro subtipos da doença: Luminal A, Luminal B, HER2 positivo e triplo negativo – em ordem do menos para o mais agressivo. Segundo a doutoranda, a presença do DNA do vírus foi identificada em todos os subtipos, em pesquisas realizadas pelo grupo e por pesquisadores de vários países.

Nathália investiga a presença do DNA desse vírus no genoma de células tumorais de câncer de mama. Esse vírus modula a resposta imunológica do paciente? Será que ela a altera? Como isso pode estar associado ao desenvolvimento e progressão da doença? São essas algumas das perguntas que ela pretende responder nesse estudo inédito no país.

“Os grupos demonstram a presença do DNA deste vírus, mas ninguém descreve como ele atua para o desenvolvimento do câncer de mama”, afirma Nathália

 

A participação desse vírus no câncer de mama humano foi discutida em um estudo publicado em maio deste ano pelo grupo na revista holandesa “Microbial Pathogenesis” (Elsevier), que compila as evidências epidemiológicas descritas na literatura até hoje, e traz discussões controversas sobre o tema na literatura e sobre possíveis mecanismos pelo qual esse vírus participa no desenvolvimento da doença.”O que a gente tem hoje são evidências epidemiológicas. Os grupos demonstram a presença do DNA deste vírus, mas ninguém descreve como ele atua para o desenvolvimento do câncer de mama”, afirma. A hipótese levantada é que algumas vias imunológicas podem ser alteradas quando o vírus infecta o organismo, e isso levaria ao desenvolvimento desse tipo de câncer, podendo alterar o comportamento tumoral.

Agente Viral

A pesquisadora Nathália explica que a transmissão do vírus em camundongos se dá através do leite materno, no qual a mãe transmite para a prole, por via oral, durante a amamentação. No intestino, o vírus encontra e infecta as células do sistema imunológico, que podem entrar em contato com as células mamárias e lá o vírus pode desenvolver o câncer de mama em humanos. Em outras pesquisas, ele já foi encontrado também na saliva de gatos e em tumores mamários caninos. Para chegar aos humanos a possibilidade é do contato com esses animais. “Em humanos, o mecanismo é bem paralelo a isso. O vírus foi encontrado em leite materno, no sistema imunológico intestinal e na saliva”, afirma.

A transmissão é nessa fase inicial, mas o desenvolvimento do câncer se daria tardiamente na vida adulta. O vírus fica incubado no organismo e só passa a responder quando há alteração nos níveis hormonais, como no período da puberdade ou da lactação, com a liberação de estrógeno e progesterona. A infecção crônica pelo vírus pode levar a danos no DNA, já que o vírus se integra no genoma celular e pode ativar mecanismos imunológicos que promovem mutações em genes associados ao câncer.

O grupo lembra que as pesquisas estão em fase inicial e que nem todos os casos de câncer de mama são associados ao MMTV. Nos estudos realizados no Laboratório, a prevalência de MMTV em cânceres de mama foi de 19%. No mundo a prevalência varia de 0 a 50%. Existem ainda outros fatores associados à infecção e ativação do vírus em questão e ao desenvolvimento do câncer de mama, como por exemplo, susceptibilidade genética e uso de terapias hormonais (anticoncepcionais), que podem atuar na produção viral e na estimulação da proliferação de células da mama, e pode levar a tumores.   

Extensão

Como apontam as pesquisas, o câncer de mama é uma doença multifatorial, na qual tanto fatores endógenos (genética) quanto exógenos (ambientais) contribuem para o desenvolvimento da doença. Nesse contexto, a alimentação, o estilo de vida e episódios de estresse emocional podem estar envolvidos. Para identificar e atuar na conscientização de jovens, foi implementado o projeto de extensão “Cultivando saúde: prevenção contra o câncer de mama”.

Uma das frentes do projeto de extensão atua no Hospital do Câncer de Londrina, com pacientes que fizeram o tratamento para câncer de mama e estão em consultas periódicas. Náthalia Pereira, junto com o grupo de pesquisa, que também faz parte das atividades, conta que conversam com pacientes para saber sobre alimentação, nível de ciência dos fatores de risco da doença, e também para identificar a situação emocional de cada uma. Com a pesquisa, obtiveram dados surpreendentes: a maioria das pacientes afirmou que teve episódios de estresse severo, em que perderam alguém, tiveram problemas financeiros, entre outros, antes do desenvolvimento da doença – o que leva as pesquisadoras a crer que estresse emocional pós-traumático pode estar associado ao câncer.

O projeto atua também diretamente com alunos do Ensino Médio para conscientizar sobre o câncer de mama. Nesse pouco tempo, 697 jovens foram atendidos em Londrina e nos distritos de Guaravera, Warta, Lerroville e Paiquerê. “A grande preocupação hoje é com câncer de mama em mulheres bem jovens. Portanto, nas escolas enfatizamos a importância da alimentação saudável, atividade física ao sol. Os jovens de maneira geral se alimentam muito mal e fazem pouca atividade física”, considera a professora Maria Angelica Ehara Watanabe. Ela ainda aponta que um fator mais agravante é que nas pacientes mais jovens o tumor geralmente é do tipo mais agressivo e alto grau de índice de proliferação.

Para fazer a conscientização, os estudantes de pós-graduação dão palestras sobre prevenção do câncer de mama e alertam sobre uso do cigarro e de bebida alcoólica, além de incentivar a alimentação saudável e a prática de exercícios.

Importância do sistema imunológico no câncer

“Uma coisa é ver o efeito da molécula, outra é avaliar como variações genéticas alteram a produção e atividade dessa molécula e como isso influencia a doença”               

As pesquisas realizadas no Laboratório de Polimorfismo de DNA e Imunologia (LEAPI) não se atêm apenas a agentes externos, como vírus e estilo de vida, mas também na investigação do comportamento do sistema imunológico no microambiente do câncer de mama. O doutorando Glauco Akelinghton Freire Vitiello, do Programa de Pós-graduação em Patologia Experimental, do CCB, estuda alterações genéticas em moléculas da via do TGF-² (fator de transformação do crescimento beta). Essa molécula age no sistema tumoral de forma ambígua, às vezes influenciando na progressão da doença e, em outros casos, inibindo a ação do tumor.

Para a pesquisa, é feita análise do material genético de pacientes com câncer e comparado com indivíduos controle, que não possuem histórico familiar da doença e têm baixo risco de desenvolvê-la. Nas pacientes com cânceres agressivos, como no caso do subtipo de câncer de mama triplo negativo, foi identificado que a molécula promove mais progressão dos tumores. Em tumores menos agressivos, como no subtipo Luninal A, ela inibe a proliferação da célula cancerígena.

Estudos com TGF-² já foram realizados, mas esta pesquisa é inédita por analisar os efeitos de variações genéticas na molécula. “Conseguimos com esse trabalho sugerir por análise do gene, o papel dessa molécula já demonstrado na literatura. O que não se sabia muito bem, onde nossa pesquisa foi mais aprofundada, foi avaliar os efeitos de variação genética no TGF-² em subtipos moleculares de câncer de mama. Uma coisa é ver o efeito da molécula, como uma molécula, outra coisa é avaliar como variações genéticas em cada paciente alteram a produção e atividade dessa molécula e como isso influencia a doença”, explica.

Glauco conta que é a primeira vez que é feita essa análise na população brasileira. Em outras populações já foi avaliado e identificou-se, por exemplo, que na japonesa, algumas alterações estudadas sequer são observadas. O pesquisador defende a repetição desses estudos em diferentes populações, devido à genética distinta nas populações mundiais – que pode ocorrer também regionalmente em um país. “A brasileira é diferente das outras, e é mais rica geneticamente devido à alta miscigenação”, afirma.

Os resultados reportados estão publicados na revista alemã Journal of Cancer Research and Clinical Oncology (Springer). Novos resultados estão em fase de produção para publicação.

Tratamentos

Com o foco dos estudos no sistema imunológico, as pesquisas realizadas no Laboratório são orientadas pela professora Maria Angelica Ehara Watanabe (Departamento de Ciências Patológicas), também defendem o tratamento com foco na individualidade de cada tumor e de cada paciente. Além de analisar a defesa do corpo para combater a doença, eles também analisam se o organismo não está interferindo para que o problema seja potencializado.

“A ideia para o futuro é o que a gente chama de Medicina de Precisão. Queremos parar de falar da cura do câncer e falar da cura desse câncer, nesse paciente, baseada na característica do tumor dele e na característica genética do paciente em si. Vamos partir do geral e ir para o específico, com uma Medicina personalizada, individualizada”, defende Glauco.

A justificativa é que a maior parte dos cânceres é de origem multifatorial e, além disso, cada um tem sua própria característica. “O paciente tem câncer de mama, mas qual câncer de mama? É uma doença individual”, explica a professora. Até o final deste ano, a estimativa é que 600 mil novos casos de câncer sejam diagnosticados no país, segundo o Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA).

Segundo a docente, a imunoterapia, que potencializa a resposta imunológica antitumoral, está sendo utilizado nos tempos atuais. Um tratamento realizado de forma a combater o câncer utilizando o próprio sistema de defesa do corpo para atacar as células do câncer.

É na análise do tumor, por meio de biópsia, que o tratamento começa. Ali é analisado o comportamento desse tecido tumoral e investigado como ele se desenvolve para encontrar maneiras de melhor predizer a evolução dessa doença naquele paciente. Os pesquisadores vão além: junto com o tumor existe todo um sistema imunológico, um microambiente. “É avaliar o tumor no contexto dele no órgão. Ele é mais do que uma massa de células crescendo, é um tecido vivo que modela o tecido vivo em volta e que recebe influência disso, então é uma troca, uma rede”, explica o pós-graduando Glauco Vitiello.

Fonte: UEL

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